Claudio de Oliveira Kagohara

 

Qual é seu nome?  Claudio de Oliveira Kagohara
Em qual país, estado e cidade você nasceu? São Paulo Brasil
Como foi sua infância ? Conte fatos marcantes. Meu pai era caminhoneiro e,portanto, saia de madrugada para trabalhar e voltava no início da noite. Já, a minha mãe fazia todas as prendas domésticas, não trabalhava fora, e cuidava dos sete filhos. Eu sou o mais velho, felizmente fui o único que foi acometido pela pólio, nasci em julho de 1962 e peguei a pólio a março de 1963, ou seja, eu era um bebê com nove meses de idade. Conta a minha mãe que eu fui levado para tomar a dose da vacina anti-pólio, mas pelo fato de estar com febre – a enfermeira não quis dar a dose salvadora. Assim, segundo a minha mãe, eu fiquei dos nove meses até os doze meses mexendo apenas a cabeça – eu tinha apenas o movimento do pescoço. Após os doze meses, quando fiz um ano de vida, comecei a mexer as pernas e o braço esquerdo. Fiquei, então, com o pulmão direito, todo tórax, ombro direito e braço direito com sequelas severas. Todavia, durante a infância a paralisia não me trazia tantos problemas apesar das dificuldades em fazer algumas coisas, uma vez que quase tudo sempre foi feito, projetado, desenhado e desenvolvido para a mão direita. Mesmo assim, eu fazia quase tudo o que os outros faziam mas de maneira diferente, pois eu nunca tive força no braço direito e nem firmeza com a mão direita. Então, desde cedo, às vezes, eu não era escolhido para participar de brincadeiras em time do tipo futebol, volei, basquete etc com os colegas – acho que isso me forçou e reforçou um lado mais de ter independência para fazer as coisas, não depender das pessoas e ter atitudes solitárias. Recordo que via as pessoas se ajudando para fazer quase tudo, isso é normal pois o ser humano é sociável, mas normalmente eu tinha que fazer as coisas sozinho. Talvez, não por acaso, o meu esporte preferido e praticado desde criança sempre foi o ciclismo de estrada, pois assim eu não dependia de ninguém para treinar e nem competir: era só montar na bike e sair. O que eu percebia também era que muitas coisas que as pessoas faziam normalmente, eu não conseguia fazer por mais que quisesse e tentasse como, por exemplo, fechar as mãos para tomar água ou brincar naquele brinquedo que a gente vai pulando feito um macaco alternando as mãos. Eu sabia que eu não conseguia fazer mas não entendia a razão, uma vez que todos os meus colegas conseguiam – parece que a gente vai percebendo as nossas limitações e diferenças aos poucos ao longo da infância. Também, era muito chato quando as outras crianças ficavam fazendo perguntas sobre o problema, ou apontando o dedo para a gente como se eu fosse um extraterrestre ou até mesmo quando faziam “bullying”. Lembro de expressões do tipo “braço de formiga”, “joga desse lado que ele não pega”, “cabeção” etc.
Como foi sua juventude? Conte fatos marcantes. Bom, quando eu fiquei mocinho, lembro que eu morria de vergonha do meu problema, ou seja, ter um braço muito fino e outro bem forte. Recordo de ir de blusa para a escola para tentar esconder a diferença entre os braços, mesmo na época do verão com calor de 40 graus. Eu torrava por dentro, suava, qualidade de vida zero, mas parece que era melhor do que ser observado como se fosse alguém que tivesse feito um mal maior contra a humanidade. Na realidade, depois percebi que também não era normal andar de blusa em pleno verão, mas sempre que usava uma camiseta e as pessoas ficavam me olhando, me observando, eu me sentia como se estivesse pelado. Não conseguia me sentir à vontade e ficava muito constrangido. Na verdade, à medida que fui ficando mocinho, fui percebendo que o espelho não era o meu amigo. Eu vestia as camisas por mais bonitas que fossem mas elas não davam caimento, ficavam murchas do lado direito, eu tentava esticar – fazer alguma coisa, mas fui me acostumando que não adiantava querer não mostrar o que eu realmente era, ou tentar mostrar o que eu não era. Esse cenário foi me levando cada vez mais a me isolar, sentir muita tristeza, revolta, ser ateu por convicção, não gostar das pessoas e não acreditar nelas. Sem dúvida, a juventude foi a pior parte da minha vida em termos de auto-estima, aceitação própria, orgulho próprio. Não bastasse o mar de hormônios que nos invadem nessa fase da vida e que tanto nos modificam, eu fui crescendo com um grande viés sobre a minha própria existência. Eu me perguntava por quê eu tinha que passar por tudo aquilo e o que eu tinha feito para que algumas pessoas me caçoassem, me desrespeitassem, me zombassem, me fizessem de alvo de brincadeiras que me diminuíam. Se despir para um momento íntimo com alguém pela primeira vez, também sempre me deixou constrangido.
Como esta sendo sua vida hoje? Conte fatos marcantes. Hoje, com 55 anos, já com netos, toda problemática psicológica está melhor entendida e administrada. Todavia, o que está mais em voga são as complicações da síndrome pós-pólio, pois sinto muita fadiga principalmente em dias quentes, a qualidade do sono que nunca foi boa parece que é algo irremediável, sinto muitas dores na coluna na região lombar (pelo fato de sempre ter feito esforço com o lado esquerdo do corpo), não consigo ficar muitos minutos sentado na mesma posição e o mesmo ocorre para dormir. Também, agora, o que eu não sentia até uns três anos atrás, muita dor na região da virilha – exatamente no encontro das coxas com a virilha. Também, o meu ombro esquerdo fica muito dolorido se eu fizer qualquer esforço repetitivo do tipo capinar, abanar brasa de churrasco etc – no outro dia eu não tenho força nem para puxar o cobertor – dói muito, pois parece todos os músculos do ombro ficam inflamados. Os outros dois problemas são comuns a qualquer pessoa normal: próstata e pressão alta. _x000D_
Em caso de duvida
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